Há um texto extraordinário do filósofo Giovanni Pico della Mirandola, escrito em 1486, intitulado Discurso sobre a dignidade humana. Nele, Pico afirma que o ser humano não possui uma natureza fixa — o que nos concede algo precioso: a capacidade de nos libertarmos das amarras familiares, das heranças arcaicas e moldarmos a própria vida por meio da escolha consciente.
Essa ideia atravessa séculos porque toca um ponto essencial da condição humana: não somos um produto acabado. Somos obra em construção.
A responsabilidade que nasce da liberdade
No texto, Pico utiliza a expressão “livre escolha”. Tecnicamente, trata-se de um pleonasmo — afinal, escolha, por definição, já pressupõe liberdade. No entanto, essa redundância não é um erro: é um convite à reflexão.
Ao dizer “livre escolha”, somos conduzidos a pensar não apenas na liberdade, mas na responsabilidade que vem junto com ela. Escolher é assumir as consequências. É abandonar a terceirização da própria vida.
Palavras que despertam consciência
Como palestrante motivacional, tenho o compromisso de fazer com que as pessoas compreendam a profundidade do que está sendo dito. Por isso, às vezes sou propositalmente redundante — não por descuido, mas por intenção.
As palavras, quando bem usadas, não apenas informam.
Elas despertam consciência.
Em um mundo saturado de mensagens rasas, repetir o essencial pode ser mais transformador do que apresentar algo supostamente novo.
O ser humano como escultor de si mesmo
O trecho mais conhecido do texto de Pico della Mirandola resume, com beleza e potência, a ideia de liberdade de autoconstrução:
“Não te fizemos nem celeste, nem terreno, mortal ou imortal, de modo que assim, tu, por ti mesmo, qual modelador e escultor da própria imagem, segundo tua preferência e, por conseguinte, para tua glória, possas retratar a forma que gostarias de ostentar. Poderás descer ao nível dos seres embrutecidos; poderás, ao invés, por livre escolha de tua alma, subir aos patamares superiores que são divinos.”
Essa passagem nos lembra que não somos reféns da origem, do passado ou das circunstâncias. Somos responsáveis pelo caminho que escolhemos trilhar.
Autoconstrução é uma escolha diária
Mais de 500 anos depois, essa visão permanece atual. Todos os dias somos convidados a escolher: repetir padrões ou construir novos caminhos; reagir automaticamente ou agir com consciência.
Somos autores da nossa própria trajetória — e temos, a cada manhã, a oportunidade de reescrevê-la.
